Segunda edição da Feira Imagina presta homenagem à jornalista, cineasta, poeta e artista visual Ilma Fontes

A Feira Imagina de Artes Visuais começou na manhã deste sábado (28), no Museu da Gente Sergipana, com mais de 11 horas de programação voltada ao diálogo e à produção artística. Realizado pela Rede Colaborativa Mulheres da Imagem Sergipe (MIS), o evento reúne cerca de 180 mulheres e inclui oficinas, palestras, rodas de conversa, leituras de portfólio, além de feira de artes, gastronomia e atrações musicais.

No período da manhã, a programação formativa contou com as oficinas Entre as intimidades dos gestos, com Ana Lira (PE/RJ), Cinemas Nascentes – Mulheres na direção em Sergipe, com Manoela Veloso (SE), e Azul em processo: oficina de cianotipia, com Julia Vilela (BA). A oficina de máscaras divertidas, com Mirella Souza e Gabriella Guimarães (SE), ainda encantou e divertiu as crianças na área dos erês, externa ao museu. As leituras de portfólio com Luisa Magaly (BA) acontecem ao longo de todo o dia. À tarde, a programação segue com as oficinas Fotografia híbrida, com Lilian Barbon (SC/BA), Elaboração de projetos culturais, com Paloma Naziazeno (SE), e Xilogravura, com Vilma Rebouças (SE).

O primeiro turno também incluiu falas importantes de artistas nordestinas, como a palestra Navegações Estéticas, com Everlane Moraes (SE/BA), e a roda de conversa A expansão da identidade nas ramificações do trabalho artístico, com Carol Jardim, Juciele Oliveira e Sabrina Silva, mediada por Dayanne Carvalho. Em seguida, a mostra MIS no Telão, com curadoria de Ana Marinho, exibiu filmes dirigidos por mulheres. 

Segundo Everlane Moraes, sua palestra apresentou um panorama de sua trajetória como realizadora audiovisual, abordando os processos criativos e discursivos que atravessam seus filmes, personagens e territórios que marcaram sua produção. A artista também destacou o cinema como um campo amplo de possibilidades e sensibilidades, no qual cada obra se relaciona a diferentes fases de sua vida e a encontros significativos com pessoas, contextos e questões que orientam sua criação, apontando ainda para a importância de inspirar novos realizadores a trilharem seus próprios caminhos na área.

“É um caminho longo navegar por esse oceano de possibilidades, mas sempre com a intenção de chegar ao coração de quem vai assistir ao filme. E fazer com que, de repente, ele mude a realidade dessa pessoa, a ideia que ela tem sobre algo, e que ela também consiga transformar o mundo. Como já dizia Zumbi dos Palmares, a gente pode fazer o mundo mais do nosso jeito. Eu naveguei por esses caminhos e fiz as pessoas navegarem comigo, dentro do que eu vivo, que é a própria vida e a minha profissão, que é ser artista ao mesmo tempo. Eu acho que o cinema é muito importante nos dias de hoje, especialmente para que a gente possa fazer várias reflexões em torno da imagem e das formas de representação”, pontuou Everlane.

Colaborando tanto nas oficinas quanto nas palestras, a artista pernambucana Ana Lira trabalhou a intimidade do gesto criativo do cotidiano como uma forma de se encontrar caminhos para produções que estão iniciando, estão estagnadas, ou precisam de uma repaginação. “A gente entende que esse é um desafio muito grande na vida da maior parte das artistas, principalmente artistas mulheres, e poder compartilhar isso com as meninas aqui em Sergipe, 13 anos depois que eu morei aqui, é muito importante”, afirmou.

À tarde, a palestra Afluxos: criação como convergência de sensibilidades cotidianas foi ministrada por Ana Lira (PE/RJ), seguida da roda de conversa A narrativa do arquivo: o cinema de Ilma Fontes e a produção audiovisual feminina em Sergipe, com Everlane Moraes, Gabi Caldas e Moema Pascoini, sob mediação de Beatriz Colucci. Tanto pela manhã quanto pela tarde, foi exibida a mostra audiovisual, reunindo filmes como Intercâmbio, de Fernanda Almeida, O Corpo da Comida é o Barro, de Paloma Naziazeno, Aurora, de Everlane Moraes, e De Tudo Um Pouco Sabia Costurar, de Yérsia Assis e Felipe Moraes.

Além das atividades formativas, a mostra Ilma Fontes — Mulher do século XX, dedicada à jornalista, cineasta, poeta e artista visual Ilma Fontes, esteve disponível à visitação por todo o tempo do evento, expondo 20 obras assinadas por mulheres e coletivos do Nordeste. As obras foram selecionadas a partir de convocatória pública e organizadas em diálogo com a trajetória e o universo criativo da homenageada. Com curadoria de Germana Araújo e Maicyra Leão, a mostra integra diversas linguagens — como pintura, bordado, audiovisual, fotografia e escultura — e ocupa o espaço central do Museu da Gente Sergipana com uma proposta expositiva que reflete a ousadia, a experimentação e a ruptura de padrões que marcaram a produção de Ilma Fontes.

Aprovação do público

De acordo com a fotógrafa e uma das organizadoras da Feira Imagina, Pritty Reis, as atividades que ocorreram ao longo do dia agregaram muito tanto na parte de formação como também como troca de conhecimento entre artistas, uma vez que o evento contou com a participação de artistas de diferentes estados. “Está sendo bem bacana perceber a aceitação do público. Tivemos uma procura bem grande nas oficinas, pela diferenciação e pela troca de experiências. Pensamos que a Feira Imagina não é só para as mulheres das artes, mas como um espaço para melhorar o nosso caminho profissional, com todos os encontros que a feira pode proporcionar”, afirmou.

A cineasta e pesquisadora Luana Campos participou da oficina de cianotipia ministrada por Julia Vilela, e gostou muito de seu primeiro contato com a técnica, após passar por duas experimentações: uma usando plantas e outra, negativos de fotografia. “Julia foi super paciente com a gente, a oficina foi maravilhosa, muito formativa. E, ao final, a gente levou duas cianotipias, então foi muito legal, até mesmo porque é uma técnica que a gente não vê muito aqui em Sergipe”, animou-se Luana.

Já o fotógrafo Marcelinho Hora passou pela experiência da leitura de portfólio com Luisa Magaly e, para ele, foi uma oportunidade única de submeter trabalhos em desenvolvimento ao olhar de uma outra pessoa, que possa se debruçar e ajudar da melhor forma. “Um trabalho, quando está começando, é muito embrionário, mas existem vários caminhos que não sabemos como vão ser. Sempre fica aquela dúvida ou a vontade de um caminho melhor, às vezes não está muito claro. E uma leitura de portfólio é fantástica nesse sentido, pois esclarece muita coisa. Eu acho que serve muito para ajudar na tomada de decisão do caminho certo em relação ao projeto”, ressaltou.

Feira Imagina

A Feira Imagina de Artes Visuais é um evento que articula formação, difusão artística e economia criativa, reunindo artistas, pesquisadoras e público em uma programação diversa que ocupa múltiplos espaços do Museu da Gente Sergipana neste sábado (28). Continuando a programação até a noite, o público ainda poderá acompanhar intervenções artísticas ao vivo, projeções audiovisuais na fachada do museu, apresentações musicais e discotecagem de artistas como DJ Dandara, Dona Nadir da Mussuca, Jaque Barroso, Patrícia Polayne e Sandyalê, além de uma feira de economia criativa que reúne artistas visuais e empreendedoras da gastronomia.

A segunda edição da Feira Imagina integra o Edital de Chamamento Público da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) nº 06/2025 para Festivais, Feiras e Mostras, com apoio da Fundação de Cultura e Arte Aperipê de Sergipe (Funcap) e do Governo Federal. Está é, ainda, uma iniciativa totalmente pensada e produzida por mulheres e pessoas não-binárias, mas sua programação se estende a todos os tipos de público. Para mais informações e para conferir a programação completa, basta acessar o perfil da Rede MIS no Instagram: @mulheresdaimagem.se.