Estratégia ganha espaço como forma de reduzir conflitos em ambientes estressantes de trabalho; especialista alerta que a técnica não deve ser permanente e destaca a importância de preservar a saúde mental
O estresse diário dos ambientes de trabalho, marcados por pressões, desentendimentos, competição diária e cobranças por metas e resultados, tende a criar um desgaste natural entre colegas, que às vezes podem ser superados com uma simples conversa e com momentos de relaxamento. Mas, em boa parte dos casos, o desgaste torna-se irreversível e transforma-se em antipatia, a ponto de ambos não suportarem um ao outro. Este contexto tornou conhecida uma estratégia comportamental que passou a ser muito difundida em fóruns on-line de saúde mental: o gray rocking (“rocha cinza”, em português).
A figura de linguagem associa esse comportamento a uma pedra, no qual a pessoa se tornou para não se aproximar ou mesmo se defender de quem ela tem antipatia. É quando ela simplesmente para de interagir com quem ela não gosta, falando com ela apenas o estritamente necessário, restringindo-se aos cumprimentos e a respostas curtas e diretas, como “sim, “não”, “é” ou “talvez”. O nome é recente, mas define um comportamento que já existia há muito tempo, mas não era totalmente claro na cabeça das pessoas e nem estava relacionado com as questões de saúde mental.
“Isso me parece um nome moderno para algo que muita gente já fazia, às vezes de forma inconsciente, para se proteger. Mas tornar consciente, intencional, com propósito de autopreservação, é o que dá sentido terapêutico. Gosto muito de uma frase que diz: ‘se tem algo no outro que te incomoda, precisa tratar isso em você’. Ou seja: quando você resolve suas questões na terapia, como o outro age, pensa ou fala não irá te incomodar tanto ou você saberá o que fazer com isso”, diz a diretora de Recursos Humanos do Grupo Tiradentes, Alessandra de Faria.
Em geral, as antipatias dentro no ambiente de trabalho são despertadas por situações de conflito ou por problemas de relacionamento no próprio ambiente. Em boa parte dos casos, eles surgem a partir de fatores como divergência de valores éticos, comportamentos abusivos, manipulação, injustiças, desequilíbrios de poder, desrespeito e outras atitudes interpretadas como falhas de caráter. “Quando uma pessoa age de forma repetida com desonestidade, fofocas, sabotagens, também é natural que gere repulsa em outros. Como no trabalho, convivemos frequentemente com as pessoas, isso pode amplificar um pouco nossas impressões”, destaca Alessandra, que também atua como mentora de carreiras.
Ela também aponta motivos de ordem pessoal e psicológica. “A antipatia pode surgir quando inconscientemente percebemos no outro a presença de traços que nos incomodam, porque repercutem em algo nosso (insegurança, projeção de medos, traços que reprimimos, etc.). Ou melhor: muitas vezes, a rejeição não é só ao outro, mas a alguma parte de nós mesmos que ele ‘desperta’”, acrescenta, destacando que as antipatias e rivalidades acabam potencializadas pelas pressões e desgastes das relações de trabalho,o que acaba tornando a convivência e o ambiente cada vez mais tóxico. “Quando somamos questões interpessoais (inveja, ego, disputa de status, falhas éticas), a convivência pode piorar. E uma convivência prolongada em um ambiente tenso ou carregado, pode se transformar em ansiedade, estresse, desmotivação”, explica Alessandra.
Como impor limites
Mas o que fazer quando se está trabalhando neste ambiente carregado e conturbado, com as relações desgastadas? É aqui que muitas pessoas recorrem ao gray rocking, fechando-se para a pessoa antipatizada, na esperança de que o “falar apenas o necessário” pelo menos mantenha a paz e a eficiência no ambiente de trabalho. Apesar de considerar essa prática “útil como ‘escudo de emergência’ para evitar desgaste imediato, reduzir conflito e proteger o equilíbrio emocional”, a mentora alerta que ela não pode ser adotada como modo permanente de ser, e que, para preservar a saúde mental, é importante que haja espaços de expressão autêntica, autocuidado, reflexão, e reavaliação de vínculos que não fazem bem, inclusive o empregador.
Alessandra também crê que é possível a cada pessoa ter uma relação normal diária com a pessoa detestada sem incorrer em incoerência seus valores e sentimentos, mas isso exige delicadeza e autoconhecimento. “Qualquer que seja a atitude, deve ser feita conscientemente, com limites claros, mantendo o que você decide mostrar de si, sem hipocrisia, mas escolhendo a neutralidade das emoções reativas. Isso não precisa ser “falsidade”, mas uma defesa consciente, preservando sua energia e particularidade. Combine essa neutralidade com coerência, mantendo seus valores, limites e ética. Se trata de manter respeito mínimo, sem se expor à manipulação”, orienta.
Outra recomendação da mentora é buscar espaços de descompressão, como amigos, terapia e grupos de confiança, para externar o que realmente sente, evitando que a pessoa viva constantemente “na casca de pedra”. Em casos extremos, em que as condutas da pessoa provoquem danos reais à empresa, ao desempenho da equipe ou mesmo à autoestima e à saúde mental, pode ser necessário tomar decisões mais firmes, como redução de convívio, denúncia (no trabalho, via compliance ou RH), buscar ambiente mais saudável, ou mesmo sair da situação, pedindo demissão, transferência de área ou rompimento de vínculo.
“Eu acredito que a decisão de estar em um trabalho é sempre da pessoa. Quando o ambiente está prejudicando a saúde mental, é o momento de fazer uma mudança. Se vitimizar e colocar a responsabilidade na empresa e nos outros não é o melhor caminho, porque ninguém pode decidir sua vida além de você mesmo. Então essa necessidade de se proteger sempre, deve ser trocada por escolha de estar naquele local. Só fazem conosco o que permitimos, e cabe a nós mesmos definirmos qual o limite”, conclui Alessandra.
Autor: Gabriel Damásio
Fonte: Asscom Unit



