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Ferramentas são cada vez mais procuradas para desabafos e orientações, mas não têm habilitação profissional nem substituem o acompanhamento psicológico
Um grande debate que vem crescendo no âmbito dos cuidados com a saúde mental é o uso cada vez maior e constante das tecnologias de inteligência artificial, através de aplicativos e chatbots que se vendem como “terapeutas on-line”, “bots de saúde mental” ou ”assistentes de apoio emocional”. Alguns ficaram mais conhecidos, mas as próprias plataformas de uso geral, como o Gemini e o ChatGPT, vem sendo usadas livremente por muitas pessoas como espaço para desabafos pessoais, pedidos de conselhos ou busca de orientações para questões da própria mente.
Esse uso, muitas vezes sem o acompanhamento e a orientação de um profissional especializado, como um psicólogo ou psiquiatra, abre espaço para erros e desvios que podem muitas vezes agravar o quadro de quem já tem algum transtorno ou problema de saúde mental. Dois casos do tipo ganharam repercussão nos Estados Unidos, onde duas plataformas e suas empresas proprietárias foram processadas pelas familias de dois adolescentes que cometeram suicídio. A alegação é de que as plataformas negligenciaram sinais reais, simularam situações e agravaram sintomas já existentes. Nos dois casos, a Justiça americana conseguiu firmar acordos e acertar o pagamento de indenizações.
No Brasil, o Conselho Federal de Psicologia (CFP) expediu uma nota de posicionamento sobre o tema, em julho do ano passado. Ela reconhece que a tecnologia pode ajudar em tarefas como organização de informações e atividades administrativas, mas ressalta que ela não deve substituir a atuação, o julgamento ético e a responsabilidade dos profissionais. E alerta para riscos como vazamento de dados sigilosos, preconceitos e discriminações gerados por algoritmos, informações incorretas e substituição da interação humana por atendimentos automatizados.
“Novas aplicações surgem continuamente, transformando práticas, ferramentas e modos de interação com sujeitos e instituições. Esse cenário impõe a necessidade de um acompanhamento constante por parte das entidades da Psicologia, das instituições de formação e dos próprios profissionais, tanto para compreender criticamente essas inovações quanto para garantir que seu uso se mantenha ancorado em princípios éticos, técnicos e de compromisso com os direitos humanos. Mais do que adotar ou rejeitar a IA, trata-se de construir formas responsáveis de integrá-la à prática psicológica, com discernimento, supervisão e atualização permanente”, diz um trecho da nota do CFP.
A psicóloga Aline Lisboa dos Santos, do curso de Psicologia da Universidade Tiradentes (Unit), explica que, do ponto de vista ético e legal, as inteligências artificiais não possuem habilitação profissional, não estão submetidas aos Conselhos Regionais de Psicologia e não respondem pelos efeitos de suas intervenções. “Isso significa que, embora possam ser utilizadas como ferramentas auxiliares para fins de informação ou psicoeducação, não podem ser confundidas com a prática psicológica propriamente dita”, diz ela, acrescentando que, “se, por um lado, essas tecnologias prometem ampliar o acesso a recursos de cuidado e oferecer respostas imediatas a pessoas em sofrimento, por outro, elas trazem consigo uma série de questões éticas, clínicas e políticas que não podem ser negligenciadas”.
A professora da Unit reitera que as ferramentas tecnológicas não fazem psicoterapia, mas são sistemas treinados para reconhecer padrões de linguagem e produzir respostas que podem soar empáticas ou acolhedoras. “Mas isso não significa que haja escuta clínica, compreensão da singularidade ou responsabilidade profissional. A clínica psicológica não se reduz a um conjunto de técnicas ou conselhos; ela pressupõe encontro, vínculo, manejo, ética e a possibilidade de que algo novo emerja da relação entre dois sujeitos. Trata-se de uma dimensão essencialmente humana, que não pode ser plenamente reproduzida por algoritmos”, diz ela.
E porquê as pessoas têm procurado mais estas tecnologias de “apoio psicológico virtual” e menos por um profissional humano, formado e capacitado para esse fim? A resposta pode dizer mais sobre as dificuldades contemporâneas de acesso à saúde mental, como filas extensas nos serviços públicos, dificuldades financeiras, escassez de profissionais em determinadas regiões e o próprio estigma em torno do sofrimento psíquico. “Eles fazem com que muitas pessoas encontrem nesses aplicativos uma alternativa aparentemente mais acessível. Contudo, seria preocupante naturalizar a substituição do cuidado humano por soluções tecnológicas, como se problemas sociais e coletivos pudessem ser resolvidos apenas por meio da inovação digital”, ponderou Aline.
Respostas prontas para questões complexas
A psicóloga considera que o maior desafio das pessoas nos dias atuais talvez não seja rejeitar a tecnologia, mas resistir à tentação de acreditar que a complexidade da experiência humana pode ser inteiramente automatizada. “Em uma época marcada pela aceleração, pela hiperconectividade e pela busca constante por respostas imediatas, vale recordar que o cuidado em saúde mental continua sendo um trabalho que exige tempo, vínculo, responsabilidade ética e, sobretudo, a presença do outro. Por mais sofisticadas que sejam as tecnologias, a experiência humana permanece atravessada por dimensões de singularidade, vínculo e produção de sentidos que resistem à sua completa automatização. É nesse horizonte que a Psicologia continua afirmando a relevância de uma escuta ética, situada e profundamente humana”, conclui.
Embora algumas dessas tecnologias utilizem referenciais da Psicologia e contenham eventuais consultorias de profissionais da área, não existe um acompanhamento clínico contínuo nem uma supervisão equivalente àquela exigida na formação e na prática dos psicólogos. “Além disso, muitas dessas plataformas são desenvolvidas por empresas privadas, inseridas em uma lógica de mercado que transforma o sofrimento psíquico em objeto de consumo. Nesse cenário, o cuidado corre o risco de ser reduzido a um produto rápido, personalizado e disponível sob demanda, em consonância com uma cultura marcada pela imediaticidade e pela intolerância ao mal-estar”, avalia Aline Lisboa.
A psicóloga chama a atenção para outro aspecto: a ilusão de que todo sofrimento pode ser traduzido em dados e administrado por sistemas inteligentes. Segundo ela, o sofrimento humano é atravessado pela história, pelos vínculos, pela cultura e pela singularidade de cada sujeito, transformando o que se apresenta em uma psicoterapia em muito mais do que um problema a ser resolvido, mas em uma experiência complexa, que exige escuta e elaboração. E os riscos tornam-se ainda maiores quando pessoas em intenso sofrimento psíquico passam a se apoiar exclusivamente nesses recursos da IA.
“Ao oferecer respostas prontas, as inteligências artificiais podem, em alguns casos, favorecer uma lógica adaptativa e normativa, reforçando a expectativa de que emoções difíceis devam ser rapidamente eliminadas, em vez de compreendidas. Nenhum sistema automatizado é capaz de assumir responsabilidade clínica, avaliar adequadamente situações de risco ou substituir a construção de um vínculo terapêutico. Em determinados contextos, respostas inadequadas ou excessivamente genéricas podem inclusive contribuir para o agravamento do sofrimento ou para o adiamento da busca por atendimento especializado”, detalha Lisboa.
Autor: Gabriel Damásio
Fonte: Asscom Unit




