Nesta quarta-feira (25), aconteceu a abertura da exposição “Senhor dos Passos: a devoção de um povo”, na Casa das Culturas Populares, reunindo fotografias do artista Heitor Xavier sobre a tradicional Romaria do Senhor dos Passos, em São Cristóvão. Realizada pela Fundação Municipal do Patrimônio e da Cultura (Fumpac), o acervo revela o olhar atento e sensível do fotógrafo por meio de imagens que capturam a fé, a emoção e os simbolismos que marcam uma das maiores manifestações religiosas de Sergipe. A exposição conta com 15 fotografias e segue aberta ao público até o início do mês de abril.
Com curadoria de Rebeca Leão e Sandra Santana, a exposição apresenta o olhar fotográfico de Heitor Xavier, revelando detalhes essenciais para a compreensão da grandiosidade e da dimensão simbólica da romaria. Entre expressões de devoção, promessas, lágrimas e silêncios, as imagens conduzem o visitante a uma imersão profunda na espiritualidade e na identidade cultural do povo sergipano.
A presidenta da Fumpac, Paola Santana, destacou que a exposição reafirma o sentimento de pertencimento que sustenta a tradição ao longo dos séculos, com cada imagem revelando não apenas um registro estético, mas a expressão viva da devoção do povo de São Cristóvão. “Essas fotografias traduzem aquilo que muitas vezes não conseguimos colocar em palavras. É nesse encontro entre tradição e comunidade que fortalecemos nosso sentimento de pertencimento. As fotos transmitem essa devoção de forma profunda e sensível”, ressaltou Paola.
Para o fotógrafo Heitor Xavier, a Romaria do Senhor dos Passos ultrapassa o caráter estritamente religioso e se consolida como uma das maiores expressões de fé do Nordeste e um dos pilares da identidade cultural de São Cristóvão. “Ela não é apenas um ato religioso: é memória, tradição e pertencimento. São Cristóvão respira a romaria durante esses dias. Busquei capturar humanidade. A romaria não é apenas a procissão; é o detalhe da mão segurando o terço, o devoto caminhando descalço, o abraço depois do encontro das imagens. São esses pequenos gestos que revelam a grandeza do evento. Registrar a romaria é preservar patrimônio cultural. Essas imagens serão referência para futuras gerações entenderem como a cidade viveu sua fé nesse período”, pontuou o fotógrafo.
Rebeca Leão, coordenadora da Casa das Culturas Populares e uma das curadoras da exposição, explicou que a ideia de trazer as fotografias de Heitor Xavier surgiu após acompanhar o trabalho do artista, e a escolha priorizou registros que não apenas ilustrassem os aspectos da romaria, mas que evidenciam o povo como verdadeiro protagonista da tradição. “Se hoje celebramos uma tradição secular, é graças à devoção da população de São Cristóvão”, destacou Rebeca, ressaltando que buscou dar ênfase às fotografias que capturam fielmente a fé e a devoção da comunidade.
Sandra Santana, curadora da exposição, entende a Romaria do Senhor dos Passos como uma jornada coletiva profundamente enraizada na cultura local e destaca a dimensão estadual da celebração. ”A festa transcende São Cristóvão e atrai fiéis de cidades como Aracaju, Lagarto e Itaporanga, além de diversos municípios sergipanos. Muitos fazem o percurso a pé, numa verdadeira caminhada de fé que já funciona como uma extensão da procissão. É uma jornada coletiva, onde cada romeiro traz consigo uma história única, seja na busca por curas ou em agradecimento”, pontuou.
A exposição também incorpora peças de ex-votos, que simbolizam os pedidos realizados pelos fiéis ao Senhor dos Passos e as graças alcançadas, frequentemente relacionadas a causas delicadas, como questões de saúde, conquistas materiais ou realizações pessoais. A iniciativa busca, assim, compartilhar a história e a devoção do povo, além de proporcionar um espaço interativo no qual os visitantes podem acender uma vela, favorecendo uma experiência mais próxima e significativa com a exposição.
A Romaria
A mostra celebra uma das mais significativas expressões da fé católica no Nordeste brasileiro. A Romaria do Senhor dos Passos possui mais de um século de tradição e, desde 2015, é reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial de Sergipe. A cada edição, a celebração mobiliza mais de 70 mil fiéis, transformando a cidade em um cenário que simbolicamente remete à “Jerusalém dos tempos bíblicos”.
Durante o período da romaria, o ambiente é marcado pela fé e pela força da tradição. A cerimônia carrega um profundo sentido de penitência, mas também se destaca pelas manifestações de agradecimento e gratidão dos devotos pelas graças alcançadas. Segundo a tradição oral, um pescador anônimo encontrou, às margens do Rio Paramopama, uma caixa contendo a imagem de Cristo ajoelhado e carregando a cruz, em tamanho natural. Na tampa, lia-se a inscrição: “Para a cidade de São Cristóvão d’El Rey”. A imagem foi levada à Igreja da Ordem Terceira do Carmo, onde passou a ser venerada, dando origem à romaria celebrada até hoje, sempre no segundo final de semana da Quaresma.



