A CPI do Crime Organizado ouviu, na terça-feira, 24, a jornalista investigativa Cecília Olliveira, fundadora do Instituto Fogo Cruzado, em audiência marcada por críticas à política de segurança pública adotada no país nas últimas décadas. O relator da CPI, senador Alessandro Vieira (MDB-SE), destacou a necessidade de avançar com base em dados e cobrou maior clareza metodológica e soluções concretas para a retomada de territórios dominados pelo crime.
Cecília afirmou que o Brasil repete, há pelo menos 20 anos, diagnósticos já conhecidos sobre o crime organizado, mas falha em transformá-los em políticas públicas efetivas. Segundo ela, entre 90% e 95% das recomendações de CPIs anteriores não foram implementadas. “Nós sabemos investigar, sabemos diagnosticar, mas decidimos não agir”, resumiu.
A jornalista alertou para a mudança de papel do Brasil no cenário internacional, deixando de ser apenas rota do tráfico para se tornar também um agente relevante no refino de cocaína, o que amplia a complexidade do problema. Para ela, o crescimento das facções é resultado direto da ausência do Estado combinada com a atuação de agentes públicos corruptos. “O crime cresce onde falta fiscalização e onde há colaboração de servidores públicos”, afirmou.
Com base em dados do Fogo Cruzado, Cecília destacou que a atual estratégia de enfrentamento, baseada sobretudo no confronto policial, não tem produzido resultados. Ela citou a expansão territorial de grupos armados no Rio de Janeiro, que dobrou em 16 anos, além do avanço expressivo das milícias, que cresceram mais de 300% no período. “Mais operações, mais mortes e mais tiroteios não reduziram o poder das facções. Pelo contrário, elas estão mais fortes, mais ricas e mais influentes”, disse.
A depoente também chamou atenção para os impactos sociais e econômicos da violência, muitas vezes ignorados pelo poder público. Segundo dados apresentados, apenas no último ano, cerca de 500 escolas foram afetadas por tiroteios no Rio de Janeiro, além de centenas de interrupções no transporte público. “Há um custo invisível gigantesco que não é mensurado”, afirmou.
Durante a oitiva, Vieira focou em aspectos técnicos e estruturais. Questionou a metodologia de coleta de dados do Fogo Cruzado, ressaltando a importância da transparência para subsidiar políticas públicas, e explorou alternativas ao modelo atual de enfrentamento. Ao discutir a retomada de territórios, destacou o desafio de conciliar o uso da força com estratégias mais amplas e eficazes.
Em resposta, Cecília defendeu que a recuperação territorial depende de presença contínua do Estado, integração entre instituições, combate à corrupção e, principalmente, atuação sobre o fluxo financeiro das organizações criminosas. “Sem atacar o dinheiro, não há como conter a expansão”, afirmou.
O relator também abordou a discussão legislativa sobre o combate ao crime organizado, questionando a eficácia de focar apenas na repressão ao chamado crime “ultraviolento”. A jornalista argumentou que é necessário diferenciar os níveis de atuação dentro das organizações, mas reforçou que o enfrentamento precisa atingir toda a estrutura, especialmente o núcleo financeiro, hoje pouco alcançado pelo sistema penal.
Outro ponto de destaque foi a crítica à ausência de coordenação nacional. Segundo a depoente, enquanto o crime se organiza em escala nacional e internacional, as políticas públicas seguem fragmentadas entre estados. “As facções se nacionalizaram, mas a resposta do Estado continua local e desarticulada”, afirmou.
“Blindagem ilegal não é aceitável numa República”
Ao final da sessão, o senador Alessandro Vieira fez um pronunciamento sobre as interferências do Poder Judiciário nos trabalhos da CPI. Segundo o relator, a comissão já impetrou nove recursos contra decisões judiciais, com destaque para ações do ministro Gilmar Mendes, que suspendeu quebras de sigilo da empresa Maridt Participações e do fundo de investimentos Arleen.
Vieira informou que, na véspera, reuniu-se com o presidente do STF, ministro Edson Fachin, acompanhado do presidente da CPI, senador Fabiano Contarato, e que Fachin se comprometeu a dar celeridade na análise dos recursos. “Não é razoável criar qualquer espécie de blindagem ilegal para qualquer pessoa. Numa República, todos devem ser tratados de forma igual, tanto faz se usa toga ou terno e gravata.”
O relator também citou como pendentes a autorização para oitiva do ex-deputado estadual TH Joias, preso e denunciado como integrante do Comando Vermelho, e os desdobramentos do caso Master. “O caso Master representa, muito seguramente, a maior fraude financeira da história do Brasil. Crime organizado não é só preto, pobre, na favela, armado de fuzil. É qualquer atuação estruturada que faça a predação do bem público ou privado”, afirmou Vieira.
Foto: Andressa Anholete/Agência Senado




