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Representantes de diversas associações, entidades, órgãos públicos e empresas participaram de manhã de diálogo na instituição
“Eu quero trabalhar”. Maria Aparecida Ramos é mãe. Cuida da filha pequena e se permite sonhar. Ter uma oportunidade digna de emprego é o que ela mais deseja, mas, assim como tantas outras pessoas com deficiência, Aparecida enfrenta muitas barreiras no mercado de trabalho.
O assunto foi tema de uma Audiência Coletiva realizada nesta terça-feira (26), no auditório do Ministério Público do Trabalho em Sergipe (MPT-SE). A vice-procuradora-chefa do MPT-SE, Clarisse Farias Malta, coordenadora regional de Promoção de Igualdade de Oportunidades e Eliminação da Discriminação no Trabalho (Coordigualdade), afirma que a audiência coletiva integra um projeto do MPT voltado à inclusão de pessoas com deficiência e beneficiários reabilitados no mercado formal de trabalho.
“Não há como caminhar na busca por uma maior inclusão e criar oportunidades reais sem a participação de quem vive essa realidade diariamente. Para avançarmos, precisamos estar dispostos a ouvir e nos colocar na posição das pessoas que estão em lugares que, muitas vezes, só observamos. Reconhecer direitos não significa necessariamente que eles estão sendo vividos plenamente. A inclusão não começa na contratação e nem termina nela. Inclusão vai muito além do cumprimento de cotas. Exige acessibilidade, oportunidade, qualificação e crescimento", ressaltou a procuradora.
Compareceram à audiência pessoas com deficiência, representantes de associações, entidades, órgãos públicos e empresas. O evento priorizou uma abordagem diferenciada, com menos formalidades e mais espaço de fala para os principais atores sociais desse tema.
Um dos participantes foi o jovem Lucas Fernandes, que trabalha há dois anos em um restaurante da capital sergipana e contou um pouco da sua experiência. “Meu chefe e meus amigos me ajudam muito. No início, senti dificuldade com os clientes, mas estou gostando. Precisamos de mais respeito”, afirmou.
Os pais de Lucas, André e Andréa Fernandes, também compartilharam os desafios enfrentados desde que o filho ingressou no mercado de trabalho. “Nunca quis que Lucas trabalhasse. Mas aconteceu. O meu medo era o mundo lá fora e ele sair da minha proteção. Hoje, enxergo que o trabalho é uma escola da vida. O meu orgulho é que, a cada dia, eu aprendo com o meu filho”, contou Andréa.
A presidente da Federação das Associações de Pais e Amigos dos Excepcionais de Sergipe (Feapaes), Mônica Souza, falou sobre o não cumprimento das cotas para pessoas com deficiência. “As empresas tentam justificar dizendo que não cumprem as cotas porque não encontram mão de obra qualificada. Isso não é verdade, porque eles não fazem o essencial, que é investir na base. Estamos aqui, junto ao MPT, para tentar criar pontes, soluções e alternativas. Nós temos dois muros enormes que precisam ser derrubados: o muro social e o muro atitudinal”, pontuou a presidente.
Durante a audiência, os participantes relataram desafios diários, a exemplo de conseguir utilizar o transporte público ou transporte por aplicativo, principalmente para os usuários de cadeiras de rodas.
A vice-presidente do Instituto Pedagógico de Apoio à Educação do Surdo de Sergipe (Ipaese), Alana Chagas, afirma que a sociedade precisa enxergar as pessoas com deficiência sob uma perspectiva de igualdade. “Temos várias pessoas surdas formadas em Educação Física, Arquitetura, Pedagogia que, infelizmente, não são colocadas no mercado de trabalho. O nosso problema é apenas a surdez, mas nosso corpo funciona, nossa visão funciona, somos pessoas fortes, como todas as outras”, frisou.
O evento contou, ainda, com a presença de integrantes do Projeto IncluZoom, desenvolvido pelo Instituto Iluminar, que há sete anos tem a missão de fazer da fotografia um instrumento de inclusão social de pessoas com deficiência, por meio da aprendizagem e inserção no mercado de trabalho. Atualmente, o projeto tem 22 aprendizes, na faixa etária de 20 a 54 anos. Na Audiência, realizaram a cobertura fotográfica os fotógrafos Flávia Guadalupe, Maurício Audrin, Heitor Araújo e Carlos Henrique.
O secretário de Estado do Trabalho, Emprego e Empreendedorismo (Seteem), Jorge Teles, destacou que uma das barreiras é o salário oferecido às pessoas com deficiência. “Muitas vezes, as vagas ofertadas pagam apenas o salário-mínimo e o trabalhador acaba optando por receber o Benefício de Prestação Continuada (BPC). Precisamos aproveitar o crescimento econômico e a necessidade das empresas por vagas e investir na qualificação profissional”, afirmou o secretário. Também foi apresentada a plataforma GO Sergipe, que tem mais de 600 vagas disponíveis, algumas para pessoas com deficiência.
De acordo com a procuradora Clarisse Farias Malta, as informações colhidas durante a audiência serão analisadas e outros encontros devem ser realizados. “Nosso objetivo é que mais pessoas possam ingressar, permanecer, desenvolver suas habilidades e construir suas trajetórias profissionais”, finalizou.



